Ruído
Ruído
Raquel S.
Lara Sousa
Não vemos tudo o que existe. Encaixámos o tempo em horas, minutos, anos; as distâncias em centímetros, milhas, anos-luz. Inventámos deuses para não termos perguntas sem respostas. Estudámos, corrigimos, medimos: tentámos. Nem tudo o que existe pode ser observado, ou pode ser percebido pelas formas às quais nos habituámos. Nunca ninguém viu um buraco negro. O cosmos parece silencioso, porque não sabemos ouvi-lo. Não podemos entender sensorialmente a dimensão do Universo. Esforçamo-nos por imaginar que tamanho toma tudo o que existe, a velocidade inultrapassável da luz, coisas que continuam a existir enquanto tendem para o infinito. Algures – muito para além do azul a que chamamos céu – nascem e morrem estrelas, formam-se buracos negros que tentamos descrever, há pequenos defeitos quase tão antigos como o big bang que provocam ainda hoje ondas no espaço-tempo que se propagam, sem darmos por elas. As medidas do quotidiano não servem para a grandeza do universo.
Como é que conseguimos encontrar na nossa linguagem uma estrutura que nos permita pensar sobre estas coisas? Que questões colocam as investigações da astrofísica à nossa forma antropocêntrica de conhecer o mundo? Propomo-nos não só compreender melhor o universo através da astrofísica, mas também questionar o sítio a partir do qual a astrofísica se desenvolve. Enquanto observamos o universo, em que lugar nos colocamos? O que é a objectividade? A que imagens recorre um cientista para poder falar sobre coisas que parecem não caber na nossa linguagem comum? Que relação tem o tempo que medimos e gastamos enquanto vivemos com o tempo que estrutura o universo?
Como distinguimos no ruído o que realmente queremos ouvir?
Ruído nasce de um convite da Lara Sousa, investigadora na área da cosmologia e irmã de Raquel S.: o que fazer para divulgar e partilhar o conhecimento acerca de ondas gravitacionais? A Lara pensou na ideia de fazer uma peça de teatro de divulgação científica, e propô-la à Raquel, que estudou filosofia: ambas partiram sempre de perguntas e, no Ruído, puderam juntá-las, para tentar fazer perguntas cada vez melhores.
Disponível
2025
Português
978-989-33852-3
Peça de Teatro
Noitarder
Raquel S.
Nasceu em 1986 e viveu em Monção até aos dezassete. Estudou Filosofia e Estudos Literários, Culturais e Interartes. Trabalha a partir do Porto como dramaturga – escrevendo e dirigindo peças de sua autoria – e dramaturgista – acompanhando espectáculos de teatro e dança de várias companhias e adaptando textos de outros autores.
Em 2018 fundou a Noitarder, estrutura que procura cruzar teatro, literatura e filosofia, da qual é directora artística e onde dirigiu e escreveu Longe (2018), amor.demónio (2021), Ruído (2021), Cadernos de (2022), DESCANSAR (2023), Hei-de reparar. (2025), DRAMA & FÚRIA | BARBÁRIE (2025) (projecto que emerge da bolsa RECLAMAR TEMPO #2, que lhe foi atribuída em 2021) e Carne (2025). Lançou, em 2025, os dois primeiros livros das Edições Noitarder.
Foi uma das dramaturgas seleccionadas na École des Maîtres 2020, no âmbito da qual escreveu o texto Carne (2021), que estreará na Noitarder em 2025. O texto foi publicado em Portugal, traduzido em várias línguas e apresentado em França, Itália, Bélgica e Portugal. Em 2022 estreou INVASÃO!, no Teatro Experimental do Porto, e escreveu Texto, no Teatro Aveirense, no âmbito do Festival dos Canais, publicado mais tarde pela Húmus e Teatro Nova Europa. A convite do grupo Histeria PAP, dirigiu e escreveu INGÉNUAS! (2025).
Dos textos escritos para outros criadores, destaca Maráia Quéri (2022), para Romeu Costa, e Festa para Um (2017) e Fico em silêncio sempre que posso (2025; TEP), para António Júlio.
Começou o seu percurso no TUP – Teatro Universitário do Porto, onde escreveu e dirigiu Medeia de Noitarder (2013; Prémio Cidade de Lisboa no FATAL), e Atequando (2016), e co-dirigiu Ainda (2017). Em 2025 regressou para escrever AMANHÃ AMANHÃ AMANHÃ, a partir de Macbeth, dirigido por Nuno Matos.
Para além do trabalho teatral, escreveu textos ensaísticos, textos para curta-metragens e para fanzines independentes. Escreveu o livro-poema Fogo Lento. Fez assistência de direcção artística em espectáculos e no FITEI 2019; moderou conversas pós-espectáculo. Foi “outside eye” de vários artistas e mentora local do Future Laboratory no CAMPUS – PCS. Deu aulas de dramaturgia.
